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Arte com os pés na terra.

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por Constança Babo

 

Nos últimos anos, tem-se evidenciado a urgência de refletir sobre o modo como nos posicionamos e relacionamos com o meio ambiente e com os restantes seres vivos. Desde logo, afirma-se o reconhecimento de que somos todos co-dependentes, interligados e que, como defendeu o químico e engenheiro James Lovelock (1979), juntos compomos Gaia. Recorrendo às palavras da teórica Donna Haraway, no seu manifesto para cyborgs (A Manifesto for Cyborgs, 1985), “no objects, spaces or bodies are sacred in themselves; any component can be interfaced with any other”. Como também o filósofo Bruno Latour (2017) explica, a crise ecológica afeta todas as coisas vivas e os diversos domínios, não só a ciência, mas também a cultura, a arte, a sociedade, a política e a história. Observe-se, por exemplo, como na atual pandemia global existem interferências entre a sua origem, propagação e repercussões e diferentes áreas da vida.

 

Assim, um dos pontos de partida será reformular a nossa concepção do que é a natureza, nomeadamente, como propõe o filósofo Emanuele Coccia[1], vendo-a enquanto a soma de todas as coisas vivas que partilham a realidade de terem nascido. De igual modo, devemos mudar a nossa perspetiva sobre a vida não humana, ter em conta os regimes climáticos, ou seja, definir quadros de ação enquanto humanidade em prol das condições climáticas, e estabelecer novos mapeamentos do planeta, de acordo com os ecossistemas e não com as nossas, humanas, fronteiras. Assim o defende Latour (2017, p.33) no livro Down to Earth, a partir da qual se ergueu uma exposição coletiva[2], com o mesmo título, no espaço expositivo da Gropius Bau (Berlim), em 2020. Desta mostra destacam-se algumas obras, caso de uma poça de água de Kirsten Pieroth que, estagnada e suja, pode ser representativa da presença humana no planeta. Refira-se, também, uma das galerias na qual o piso foi coberto de terra, instalação disruptiva de Asad Raza, que pode ser interpretada em relação à nossa ocupação terrestre. Intitulada Absorption, esta obra proporciona uma particular e densa experiência do solo, sugerindo compreendê-lo não somente enquanto matéria que diariamente pisamos, mas como uma constituinte fundamental e estrutural terrestre, onde se sustenta toda a forma de vida, sobre a qual construímos as nossas cidades e comunidades, ou seja, no fundo, sendo o suporte e a base de todo o mundo. Personifica, deste modo, a ideia de (re)colocarmos os pés na terra, em toda a sua mais plena e múltipla significação. Ainda, o solo utilizado pelo artista consiste em resíduos do parque Prinzessinnengarten, fragmentos de tijolos, entre outros fragmentos da cidade de Berlim. Donde, à problemática ecológica utilizada por Raza, soma-se a inscrição da cidade dentro da galeria, bem como o questionamento do conceito de espaço, dos seus limites e configurações. Concebida, ainda, com reutilização de recursos, a obra afirmou-se enquanto criação artística sustentável, argumento central de toda a exposição.

 

Com efeito, a necessidade de trazer para o debate público a sustentabilidade e as atuais condições ecológicas tem-se refletido cada vez mais no campo artístico, ao mesmo tempo sendo também reflexo da importância do cruzamento entre arte, ciência e sociedade, vendo-as como esferas tão interdependentes e indissociáveis quanto todas as formas vivas. Ocorre que a arte tem esta faculdade agregadora e, simultaneamente, problematizadora, capaz de enunciar problemas, discuti-los e lançá-los em repto à sociedade. Acrescenta-se que, considerando que a arte contemporânea se encontra, tal como o mundo atual, sob o domínio da tecnologia, estas iniciativas surgem, também, através dos media digitais. Refira-se, como exemplo, a mais recente exposição do Zentrum für Kunst und Medien Karlsruhe, comissariada por Latour e Peter Weibel, o CEO do centro, intitulada Critical Zones – Observatories for Earthly Politics[3] (2020-2021), que transpôs as problemáticas ambientais para o universo da criação artística e dos novos media. A mostra procurou sensibilizar para a crise ambiental, associando-se a um projeto internacional e interdisciplinar, CZO – Critical Zone Observatories, que definiu como objeto central de análise a zona crítica, vista como uma área heterogénea, porque nela se cruzam ar, água, solo, rochas e todos os organismos vivos de cuja interação depende a qualidade e a subsistência do ecossistema. Em texto de parede, relembrou-nos que

 

 “You too are part of the natural cycle of atmosphere… you do not only live in the Earth, but from the Earth, and by doing so you are changing the Earth…” [4]

 

A exposição, pela mão de Latour, levantou também a importante questão Onde aterrar?, à qual se somam outras tais como para onde vamos? e de onde viemos?, ambas abordadas por Olafur Eliasson, um dos artistas a destacar neste contexto. A mais recente mostra deste último, no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, O Vosso/Nosso Futuro é Agora[5](2019-2020), foi constituída por obras representativas de elementos tais como o ar e a água, materializados sob a forma de espirais, círculos, arcos e curvas que interagiam entre si e habitavam os espaços enquanto entidades vivas, pulsantes e livres. Ocorre que, por um lado, a criação artística situa-se nos domínios do sensível e do belo, que se correlacionam com o “universo do natural”, e, por outro lado, tem a rara capacidade de dar imagem e forma ao que é invisível e intangível, como o são várias das manifestações da crise ecológica.

 

Convém, porém, recordar que a representação da natureza pelos artistas não é recente, antes pelo contrário, tratando-se de um dos seus temas mais primários e basilares. O mesmo foi acentuado por algumas correntes artísticas tais como o romântico, que pretendeu representar a Terra, como se verifica em pinturas tais como Rocky Reef off the Seacoast (1825), de Caspar David Friedrich, e Chevreuils à la source (1860s), de Gustav Courbet. Também se pode recordar o movimento Impressionismo, destacando-se a Impressão: Nascer do Sol (1873), de Claude Monet, em que a pintura surge como resultado da sensibilidade à natureza e à sua manifestação por meio da luz, do reflexo e da cor. Ora, de certo modo, como indicou Henri Matisse (1948)[6],

 

“Un artiste doit posséder la Nature. Il doit s’identifier avec son rhyme par des efforts qui lui feront acquérir cette maîtrice grâce à laquelle, plus tard, il pourra s’exprimer dans son propre langage.”

 

Ainda numa diferente aproximação entre a arte e o “universo natural”, mencionando novamente Coccia, devemos pensar a própria obra de arte enquanto produto da relação e do cruzamento entre várias espécies e organismos, tal como o são as flores. Todo o objeto artístico resulta de ações diversas e da interação de diversos agentes e materiais, ou seja, não é um simples produto da mão humana, provindo, ao invés, de uma lógica de reprodução, como todos os seres vivos.

 

Por fim, sublinha-se que já não é suficiente representar e convocar a Terra. É fundamental defendê-la, para tal sendo necessário ouvir e responder ao seu feedback por reação às nossas ações nela. Para tal, requer-se abandonar a posição de espectador passivo e aderir ao debate e à ação, adotando uma atitude participativa e interativa, como é, aliás, próprio da arte contemporânea. De igual modo, devemos procurar compreender os museus menos enquanto lugares do passado, da apresentação de artefactos, objetos da nossa história e cultura, e mais como espaços para pensarmos o futuro e fomentarmos uma atitude reflexiva e pró-ativa. Ademais, a arte é, ela própria, potência e recurso natural que pode cultivar a simbiose entre flora, fauna, macro e microbiologia, ou seja, a biodiversidade, todos nós.

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