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Horta comunitária: um lugar onde se cultiva o sentido de pertença.

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Eva Beth e Torsten Oelscher, são dois fotógrafos alemães quese conheceram em Munique e viveram quase 20 anos em Paris.De regresso à Alemanha, mais precisamente a Berlim, fundarama empresa “black flamingo”.

 

O trabalho que desenvolvem como uma espécie de “intérpretes”entre artistas, galerias e marcas, assim como a surpreendente localização do seu escritório, no antigo posto de gasolina que abastecia todos os veículos da Stasi, seria mais do que suficiente para nos render uma boa conversa. Mas, hoje, preferimos focar-nos na sua horta comunitária que, segundo os próprios, mudou as suas vidas no bairro parisiense onde moraram!

 

Esta entrevista foi editada por questões de tamanhoe legibilidade e previamente aprovada por ambos os entrevistados: Eva Beth (E) e Torsten Oelscher (T).

 

O inicio de uma aventura em Paris.

O que levou um casal de fotógrafos alemães a viver em Paris?

T: Já trabalhávamos como fotógrafos quando nos conhecemos em Munique e depois, quando nos mudámos para Hamburgo. De lá, tínhamos pensado ir para Londres, NovaYork ou Paris. Os pais de Eva tinham uma quinta no sudoeste da Alemanha, perto do rio Mosela, e sabíamos que teríamos que ir ajudar, pelo menos, 3 vezes por ano. Paris ficava mais perto da quinta do que Munique ou Hamburgo e, por isso pareceu-nos ser a localização perfeita!

 

Em que “arrondissement” moravam e como foram lá parar?

T: Morámos sempre na rive droite, no 18º, 9º, 11º, 19º, mudámos muito! Em 2005, fomos expulsos do loft onde estávamos, porque o proprietário faliu e precisava de vender o apartamento com urgência.

E: Naquela época, era muito difícil encontrar casa em Paris.

T: Para ter mais hipóteses, aumentámos o leque da procura e acabámos por encontrar um apartamento que tinha apenas outros cinco candidatos. Os proprietários também trabalhavam na indústria cinematográfica, por isso acho que engraçaram connosco e acabaram por nos escolher. 

 

Já conheciam esta área ou o bairro? Como era a zona?

E: Eu já me tinha perdido uma vez por aquelas bandas e achei muito bonito.

T: A Butte Bergeyre é como uma pequena colina, com uma rua por onde se pode subir e descer, então não há grande tráfego de passagem. Próximo do Parc des Buttes-Chaumont, e da sede do Partido Comunista Francês que foi projetada pelo Oscar Niemeyer, este é um mundo à parte! É como se fosse uma pequena aldeia no meio do 19eme.

E: Na realidade, era até melhor do que uma aldeia! Eu cresci numa aldeia e, às vezes, num ambiente tão pequeno as pessoas tendem a invadir um pouco a privacidade umas das outras. Ali, nunca ninguém ultrapassou qualquer limite.

T: A urbanização foi construída na década de 20, pela família Rothschild, que vendia o terreno a trabalhadores juntamente com um empréstimo, para que pudessem cons-truir as suas casas. Antes disso, havia ali um parque de diversões, Les Folles Buttes, com uma vista incrível sobre Paris.

E: Também havia a Villa Zilveli, construída nos anos 30 por um aluno do Corbusier, mas ao lado de uma grande casa havia uma mais modesta…era uma grande mistura. Vivia lá gente ligada às artes, como atores, dançarinos ou artistas plásticos, bem como professores, secretárias, etc.

T: Naquela altura, não era uma zona em que muita gente gostasse de viver, tornou-se mais famosa com o passar dos anos.

 

Uma horta comunitária onde cultivamos muitas experiências

 

Existia algum jardim? Já havia uma horta comunitária?

T: Existem 2 ou 3 vinhas em Paris. Sei que uma delas é em Montmartre, a outra era ali, ao lado da Casa Zilveli. Era uma parte da colina onde não se podia construir, por isso do lado esquerdo fizeram uma vinha e, do outro lado, o terreno estava abandonado. A certa altura, a Câmara Municipal de Paris lançou um programa para promover a criação de hortas comunitárias. Naquela época, já existia no bairro a associação Butte Bergeyre que se inscreveu com um projeto e conseguiu os fundos para criar a horta. Por isso, quando lá chegámos, esta já deveria existir há um ano.

E: A associação também tinha um espaço chamado l’utopicerie, numa antiga mercearia transformada em sede, onde se organizavam eventos.

 

Envolveram-se com a horta comunitária assim que se mudaram? Como foi o primeiro contacto?

T: No início, não tínhamos grande intenção de nos envolvermos com a horta. Já tínhamos muito que fazer na quinta. Mas, quando esta foi vendida, e uma vez que o nosso apartamento não tinha varanda nem jardim, pensámos que talvez fosse bom ter a chave da horta para ter um lugar agradável onde passar as noites quentes.

 

Qual era, exatamente, o envolvimento com a quinta? 

T: Eu cresci na cidade, mas a Eva cresceu nessa quinta.

E: Uma quinta a sério! Com vacas, porcos, vinhas, adega e, claro, uma horta. Lembro-me que mantínhamos sempre uma parte do jardim selvagem, “porque os pássaros também precisam de viver”, dizia a minha avó. Para a época, tínhamos uma abordagem bastante ecológica.

T: Desde que conheci a Eva que me envolvi com os trabalhos na quinta, sobretudo nas vinhas. Com o trator, nas colheitas, ou mesmo, a produzir o nosso próprio licor. Mas eu cresci e vivi sempre na cidade. Os meus pais até tinham um jardim, contudo nunca despertou grande interesse da minha parte.

E: Um jardim que tinha apenas relva! Eu lembro-me de achar isso estranho…mesmo flores, não tinha muitas.

T: Os meus pais não tinham “queda” para a jardinagem.

 

Mas com o Torsten parece ser diferente, tem a tal “queda” para a jardinagem?

T: Nunca tive e, diria que, ainda estou a trabalhar nisso! Está a melhorar, mas é preciso praticar, é mais uma questão de tentativa e erro. Às vezes, o que planeamos dá muito certo, mas outras vezes não. Nesses casos, trocamos algumas ideias com os vizinhos, alguém sugere “sim, têm de cortar os galhos laterais da planta” ou algo do género. É sobretudo uma questão dos mais experientes ajudarem quem tem menos “jeito” para a coisa. 

E: Eu costumava ter essa ligação à terra quando era mais nova, por ter crescido no campo, depois perdi um bocado, mas agora encontrei-a novamente!

 

Como se organizava, então, a horta comunitária do bairro? Quais eram as regras?

T: Havia cerca de 20 ou 30 participantes, cada um tinha direito a um lote de, aproximadamente 2m2 cada. Não era muito grande! Também havia uma área comum, algumas colmeias e uma área abandonada de mais difícil acesso. O bom é que, para além do seu próprio talhão, tínhamos acesso também a uma área comum, onde todos participávamos do cultivo. Normalmente, pagávamos uma taxa anual à associação, mas algo simbólico, não era uma mensalidade. 

E: A associação angariava algum dinheiro coma venda do mel produzido ou organizando alguns mercados de coisas em segunda mão.

T: Ao fim de semana, tínhamos que manter o portão da horta aberto, para que transeuntes ou turistas pudessem visitar. Mas tirando isso, era apenas diversão. Sempre que o tempo permitia, toda a gente vinha, trazia a comida e jantávamos juntos por lá.

E: Acho que, no Verão, jantávamos na horta todas as noites. Havia sempre alguém, havia sempre comida.

T: Uma vez por ano, havia o Repas de quartier(almoço do bairro). Fechavam a rua ao trânsito, cada vizinho trazia a sua mesa e comida para almoçarmos todos juntos. Era incrível!

 

Havia algum líder da horta? Às vezes neste tipo de iniciativas é difícil participar sem ter alguém a orientar.

T: Sim, sei exatamente o que isso é. Tenho a mesma experiencia de outros projetos sociais em que estive envolvido. Mas lá não aconteceu assim. Muito graças a duas pessoas que foram liderando o projeto: o Gégé (anterior presidente da associação) e o Marco(o atual presidente). Eles deram alma à comunidade, são duas pessoas fabulosas sem as quais a coisa tinha sido muito diferente. É preciso alguém no comando, assim como pessoas mais dispostas a dar do que a receber.

 

A horta comunitária diz-nos que moramos aqui!

 

A horta comunitária ajudou a cultivar amizades?

T: No início, quando começamos a participar na horta, a nossa intenção não era fazer amigos, mas sim ter acesso a um espaço ao ar livre perto de casa. Talvez tivéssemos pensado que íamos conhecer alguns vizinhos, mas esse não era o nosso objetivo. Acabou por se revelar, não só um local agradável para passar o tempo, mas sobretudo para socializar! Mal começamos a ir para a horta, começamos a fazer amizade com os vizinhos.

E: No início, eu tinha muita vergonha de falar.Mas ia para a horta e começava a fazer coisas.É outra forma de comunicar, que nos dá mais tempo, não precisamos começar imediatamente a falar. Na horta, estamos a fazer qualquer coisa, temos tempo. As pessoas começam a fazer algo contigo, mostram uma coisa que não sabias, interagem, perguntam a tua opinião. É uma forma diferente de nos enten-dermos e de comunicar. 

T: Ali, partilhamos um assunto que não é trabalho, não é comercial, é um outro nível de comunicação. E, se a comunicação flui, o sentido de comunidade prospera. Na horta, temos um tema de conversa no qual toda a gente se sente incluída. 

 

Podemos dizer, então, que a horta os ajudou a sentirem-se “em casa”? 

T: Completamente! A horta dava-nos uma sensação ótima, porque naquele momento (e isto é muito importante), sentimos que fazemos parte de uma comunidade. Senti-mos que somos bem-vindos e que fazemos parte de algo. Mesmo com um pedaço de terra não muito grande, não importa, somos parte de uma coisa maior. É o momento em que nos sentimos em casa! Quando estávamos lá, na horta, percebíamos como aquele bairro era, de facto, a nossa casa. 

E: Nunca me senti tão bem num lugar como ali, até mais que na minha própria aldeia. 

T: Definitivamente, foi a melhor época de nossas vidas. A melhor comunidade, o melhor bairro… de todos! 

 

E o que mais se pode aprender na horta, além de cultivar? 

T: Acho que o mais entusiasmante é o processo. Por exemplo, quando semeamos tomate, fazemos a sementeira, depois plantamos e só mais tarde vamos colher os frutos. Esse processo pode levar entre 9 meses a um ano. Por isso, quando começamos a cultivar, sentimos a necessidade de permanecer no mesmo lugar. Porque se eu estiver fora dois ou três meses…a cultura não vai vingar. 

E: Acho que também aprendemos a aceitar que nem tudo vai acontecer como previmos anteriormente, e isso ajuda certamente a ganhar perspetiva sobre as coisas. 

T: Aceitamos melhor o fracasso. Algumas culturas não vão, simplesmente, crescem. Colocamos a semente e não sai nada! 

E: Tínhamos uma parte do jardim que deixávamos crescer mais selvagem, o nosso amigo Gégé dizia sempre “se as abelhas estão felizes, nós devemos ficar felizes!”. Quando regressei à Alemanha, não estava lá muito feliz. Então pensei: se eu tiver um campo onde as abelhas possam ser felizes, eu também vou ficar feliz. Depois de pertencer a uma comunidade como aquela, de termos sido tão felizes, só temos que sentir gratidão. 

 

 

 

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